Um dos grandes entraves ao diálogo inter-religioso e à compreensão da fé cristã no Brasil contemporâneo é a profunda 𝗰𝗼𝗻𝗳𝘂𝘀𝗮̃𝗼 𝗰𝗼𝗻𝗰𝗲𝗶𝘁𝘂𝗮𝗹. No afã de defender agremiações institucionais, muitos clérigos e leigos misturam conceitos que a teologia e a história já separaram há séculos. Para compreender a legitimidade de uma comunidade de fé, é imperativo distinguir quatro pilares: 𝗦𝘂𝗰𝗲𝘀𝘀𝗮̃𝗼 𝗔𝗽𝗼𝘀𝘁𝗼́𝗹𝗶𝗰𝗮, 𝗧𝗿𝗮𝗱𝗶𝗰̧𝗮̃𝗼, 𝗜𝗱𝗲𝗻𝘁𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗲 𝗛𝗶𝘀𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗮.
Em primeiro lugar, é preciso reafirmar que a 𝗦𝘂𝗰𝗲𝘀𝘀𝗮̃𝗼 𝗔𝗽𝗼𝘀𝘁𝗼́𝗹𝗶𝗰𝗮 não é um “título de propriedade” de uma única instituição, mas um 𝗳𝗮𝘁𝗼 𝘀𝗮𝗰𝗿𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗮𝗹. Trata-se da transmissão ininterrupta do ministério episcopal desde os Apóstolos. O que garante essa validade é o rito, a matéria e a intenção, e não a submissão administrativa a uma sede estrangeira. A sucessão precede a burocracia.
Não se deve confundir a sucessão com a 𝗧𝗿𝗮𝗱𝗶𝗰̧𝗮̃𝗼, que é a transmissão viva da fé e da liturgia. Embora caminhem juntas, a história nos mostra que a validade sacramental pode subsistir mesmo quando há rupturas institucionais. Aqui entra o terceiro pilar: a 𝗜𝗱𝗲𝗻𝘁𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗘𝗰𝗹𝗲𝘀𝗶𝗮𝗹. O fato de uma igreja se autodenominar romana, anglicana ou nacional é uma construção organizacional posterior. 𝗨𝗺𝗮 𝗶𝗴𝗿𝗲𝗷𝗮 𝗻𝗮̃𝗼 𝗲́ “𝗮𝗽𝗼𝘀𝘁𝗼́𝗹𝗶𝗰𝗮” 𝗽𝗼𝗿 𝗰𝗮𝘂𝘀𝗮 𝗱𝗼 𝘀𝗲𝘂 𝗻𝗼𝗺𝗲, 𝗺𝗮𝘀 𝗽𝗼𝗿 𝗰𝗮𝘂𝘀𝗮 𝗱𝗮 𝘀𝘂𝗮 𝗼𝗿𝗶𝗴𝗲𝗺 𝗲 𝗱𝗮 𝗳𝗲́ 𝗾𝘂𝗲 𝗽𝗿𝗼𝗳𝗲𝘀𝘀𝗮.
Por fim, temos a 𝗛𝗶𝘀𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗮, que é a guardiã da verdade. Ela não se curva a narrativas ideológicas ou conveniências de poder. A história documenta nomes, datas e linhagens. Ela confirma quem recebeu a imposição das mãos e quem, de fato, carrega o caráter episcopal indelével. 𝗜𝗴𝗻𝗼𝗿𝗮𝗿 𝗼𝘀 𝗿𝗲𝗴𝗶𝘀𝘁𝗿𝗼𝘀 𝗵𝗶𝘀𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗰𝗼𝘀 𝗲́ 𝘀𝘂𝗯𝘀𝘁𝗶𝘁𝘂𝗶𝗿 𝗮 𝘃𝗲𝗿𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗽𝗲𝗹𝗼 𝗽𝗿𝗲𝗰𝗼𝗻𝗰𝗲𝗶𝘁𝗼.
Como Arcebispo, vejo que é dever do magistério esclarecer o povo para que não caia em discursos rasos. O estudo e a coragem de encarar os fatos são os únicos caminhos para uma fé que liberta. 𝗔 𝘃𝗲𝗿𝗱𝗮𝗱𝗲 𝘀𝗮𝗰𝗿𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗮𝗹 𝗻𝗮̃𝗼 𝘁𝗲𝗺𝗲 𝗼 𝗱𝗲𝗯𝗮𝘁𝗲; 𝗲𝗹𝗮 𝘀𝗲 𝗳𝘂𝗻𝗱𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗮 𝗻𝗮 𝗿𝗼𝗰𝗵𝗮 𝗱𝗼𝘀 𝗳𝗮𝘁𝗼𝘀.
Materia de 𝗗𝗼𝗺 𝗙𝗿𝗲𝗶 𝗟𝘂𝗰𝗮𝘀 𝗠𝗮𝗰𝗶𝗲𝗶𝗿𝗮 𝗱𝗮 𝗦𝗶𝗹𝘃𝗮 é Arcebispo Primaz da Diocese Anglicana Católica do Brasil (DACB). Especialista em Teologia Sacramental e sucessor da linhagem apostólica petrina.

































