O desfile de uma tradicional escola de samba do Rio de Janeiro transformou a Marquês de Sapucaí último Final de Semana em palco de um dos enredos mais comentados dos últimos anos: uma homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A apresentação, marcada por uma estética grandiosa e forte carga simbólica, reacendeu o debate sobre os limites entre cultura popular e posicionamento político no maior espetáculo da Terra.
A imagem que rodou o país

Um dos carros alegóricos trouxe uma escultura monumental representando o presidente com o punho erguido, gesto historicamente associado a resistência e mobilização popular. A figura vestia terno escuro com gravata nas cores da bandeira brasileira, enquanto outra alegoria incorporava o verde e amarelo em destaque.
Em outro momento do desfile, o presidente apareceu em camarote, trajando branco e chapéu panamá, ao lado de integrantes da escola e autoridades locais. A presença física somada à homenagem no enredo ampliou a repercussão.
As alas alternaram cores vibrantes — azul e branco em uma escola, vermelho e preto em outra composição temática —, com bandeiras tremulando diante de arquibancadas lotadas. A narrativa visual mesclou elementos de trajetória operária, democracia, superação e símbolos nacionais.
Cultura popular ou palanque?

A homenagem dividiu opiniões. Defensores argumentam que o samba-enredo historicamente dialoga com política, sociedade e personagens que marcaram época. Críticos, por outro lado, afirmam que a presença do presidente e a exaltação direta em ano de forte polarização ampliam a percepção de uso político da festa.
O Carnaval carioca já consagrou enredos sobre líderes políticos, movimentos sociais e períodos históricos. A própria Sapucaí foi palco de narrativas que exaltaram figuras controversas ou momentos sensíveis da história nacional. O que diferencia o episódio atual é o contexto de polarização intensa e o fato de o homenageado estar no exercício do mandato.
A força simbólica da Sapucaí
A Marquês de Sapucaí não é apenas avenida de desfile; é território simbólico. Ali, o Brasil se vê representado em alegorias que misturam fé, crítica social, memória e identidade. Quando um presidente é transformado em enredo, a escola não apenas narra uma biografia — ela assume um posicionamento artístico.
Especialistas em cultura popular apontam que o samba sempre foi espaço de resistência e expressão política, desde os tempos de marginalização das escolas até sua institucionalização como patrimônio cultural. A questão central, segundo analistas, não é se pode haver política no Carnaval, mas como ela é apresentada e recebida pela sociedade.
Reações nas redes e nos bastidores
Nas redes sociais, a repercussão foi imediata. Enquanto apoiadores celebraram a homenagem como reconhecimento de trajetória e origem popular, opositores classificaram o desfile como propaganda disfarçada.
Nos bastidores da Liga das Escolas, dirigentes reforçaram que o enredo foi escolhido pela agremiação de forma autônoma, dentro da liberdade artística garantida às escolas.

Carnaval: espelho do país
O episódio reforça uma máxima recorrente: o Carnaval não é neutro. Ele traduz o espírito do tempo. Em 2026, com o Brasil ainda marcado por divisões ideológicas, a homenagem ao presidente na Sapucaí tornou-se mais que espetáculo — virou símbolo do embate narrativo que atravessa o país.
Entre aplausos e vaias, a avenida cumpriu seu papel histórico: provocar, emocionar e refletir o Brasil real.

































