Taboão da Serra (SP) — O que poderia ser apenas mais um encontro cultural revelou-se um palco simbólico de disputas históricas no Brasil. No último sábado,21 /03/ 2026, o 4º Encontro de Matrizes Africanas reunira lideranças religiosas, autoridades políticas e representantes do poder público no CEMUR, com apoio da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania e da Prefeitura de Taboão da Serra.
Mais do que celebração, o evento escancarou um tema ainda incômodo: a luta por respeito, reconhecimento e espaço das religiões de matriz africana em uma sociedade marcada por intolerância religiosa estrutural.
Entre tradição e resistência
O encontro contou com a presença de diversas autoridades eclesiásticas das religiões de matriz africana — como Candomblé e Umbanda — que reforçaram o papel dessas práticas como patrimônio cultural, histórico e espiritual do Brasil.
Em suas falas, lideranças destacaram que essas religiões não são apenas expressões de fé, mas instrumentos de resistência negra desde o período escravocrata, atravessando séculos de perseguição, criminalização e estigmatização.
A presença política: apoio ou capitalização?

A participação de figuras públicas trouxe outro elemento ao debate. Estiveram presentes o deputado federal Vicentinho (PT), a vereadora Najara Costa (PCdoB) e o secretário municipal de Direitos Humanos, professor Moreira.

O apoio institucional foi celebrado — mas também levanta questionamentos inevitáveis:
- Até que ponto a presença política representa compromisso real com a causa?
- Ou trata-se de aproximação estratégica com segmentos historicamente mobilizados?
Essa ambiguidade não passou despercebida entre participantes mais críticos, que cobram políticas públicas concretas — e não apenas presença simbólica em eventos.
Intolerância religiosa: um problema atual, não do passado
Apesar de avanços legais, como o reconhecimento da liberdade religiosa na Constituição, casos de intolerância contra religiões de matriz africana seguem crescendo no Brasil.
Relatos de invasões de terreiros, agressões e discriminação institucional ainda são recorrentes — evidenciando que o debate promovido no encontro está longe de ser apenas cultural: é uma pauta urgente de direitos humanos.
Um evento que educa — e provoca

O 4º Encontro cumpriu também um papel didático, especialmente para jovens e novos participantes. Oficinas, rodas de conversa e manifestações culturais ajudaram a:

- Desmistificar práticas religiosas afro-brasileiras
- Combater preconceitos históricos
- Promover o respeito à diversidade

Mas, ao mesmo tempo, o evento provocou reflexões incômodas:
por que ainda é necessário lutar pelo direito de existir?
O Brasil diante de si mesmo
O encontro em Taboão da Serra revela um retrato maior do país:
um Brasil que avança no discurso institucional, mas ainda enfrenta barreiras profundas na prática.

Entre atabaques, discursos e resistência, ficou evidente que a luta das religiões de matriz africana não é apenas espiritual — é política, social e histórica.
E talvez o maior legado do evento seja este:
não permitir que o silêncio volte a ocupar o lugar que, por séculos, foi imposto à cultura afro-brasileira.
































