A recente nota divulgada pela Arquidiocese de Porto Alegre e repercutida por veículos católicos, ao afirmar que o padre Luiz Ricardo de Araújo Xavier “incorreu em ato de apostasia e cisma” ao tornar‑se anglicano, gerou perplexidade e interpretações equivocadas sobre sua fé, sua consciência e seus direitos enquanto cidadão brasileiro.
É necessário esclarecer os fatos com serenidade, respeito e fidelidade à verdade.
Padre Luiz Ricardo não abandonou a fé cristã. Ele não se tornou ateu, não aderiu a uma religião não cristã, tampouco negou o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ao contrário, em suas próprias palavras, afirma: “Respondendo ao chamado que Deus fez, a caminhada de evangelização não pode parar, antes como padre católico romano, agora como padre católico anglicano: a fé no mesmo credo e objetivo, levar as almas para o Céu”. Trata‑se, portanto, de continuidade na mesma fé cristã, partilhando o mesmo Credo histórico da Igreja, ainda que em outra comunhão eclesial.
No ordenamento interno da Igreja Católica Romana, expressões como “apostasia” e “cisma” possuem sentido técnico próprio, ligado ao Direito Canônico e aos deveres disciplinares dos seus membros. Contudo, quando esses termos são lançados ao público em geral, sem a devida explicação, acabam sugerindo que o sacerdote tenha se tornado inimigo da fé ou traidor de Cristo, o que não corresponde à realidade. Do ponto de vista da fé cristã em sentido amplo, padre Luiz permanece crendo no mesmo Deus, no mesmo Cristo, na mesma Trindade, na mesma Escritura e no mesmo Credo.
O que de fato ocorreu foi uma mudança de comunhão e de identidade clerical: padre Luiz, após anos de serviço na Arquidiocese de Porto Alegre, discerniu, em consciência diante de Deus, seguir sua vocação sacerdotal na Igreja Anglicana Católica, onde foi devidamente acolhido e ordenado conforme as normas dessa Igreja. Não se trata de fuga, nem de ruptura com o cristianismo, mas de um passo de fé, assumido com responsabilidade e transparência.
Importa recordar que o Brasil é um Estado laico, sem religião oficial. A Constituição Federal garante a liberdade de consciência e de crença, bem como o livre exercício dos cultos religiosos. Isso significa que nenhum cidadão, inclusive clérigos, pode ser perseguido ou desqualificado publicamente por exercer o direito de, em consciência, deixar uma confissão religiosa e ingressar em outra. A disciplina interna de uma instituição religiosa é assunto dessa instituição; porém, ela não pode suprimir a dignidade da pessoa, nem apagar seus direitos civis e sua boa fama.
Apresentar a decisão de padre Luiz como “apostasia” em sentido vulgar – isto é, como se tivesse abandonado a fé cristã – é injusto e desrespeitoso. Ele continua a professar a fé no Cristo ressuscitado, continua a celebrar os santos sacramentos, continua a anunciar o Evangelho, agora na Diocese Anglicana Católica do Brasil. Seu desejo declarado é o mesmo de sempre: “levar as almas para o Céu”. Mudou‑se a jurisdição; permaneceu a missão.
Também é preciso fazer justiça à própria Igreja Anglicana Católica, reconhecendo sua identidade cristã, sua fidelidade ao Credo, à Sagrada Escritura e à Tradição, e o seu compromisso com a evangelização. Rotular, de forma genérica e pejorativa, outro corpo eclesial cristão como “campo de apostasia e cisma” não contribui para o diálogo ecumênico, para a unidade dos cristãos nem para o testemunho do amor de Cristo diante do mundo.
Em vez de alimentar hostilidades, este momento poderia ser ocasião de maturidade e respeito mútuo: a Igreja Católica Romana permanece livre para aplicar suas normas internas a quem dela se afasta; a Igreja Anglicana Católica, por sua vez, acolhe com alegria um sacerdote que deseja servir ao Povo de Deus em sua comunhão; e o Estado brasileiro garante a ambos o pleno exercício de sua liberdade religiosa. No centro de tudo está uma pessoa concreta, com sua história, sua consciência e sua vocação.
Por isso, ao contrário de enxergar em padre Luiz um “apóstata”, é mais honesto reconhecer um ministro que, ouvindo a voz de Deus segundo sua consciência, assumiu com coragem a transição de uma comunhão para outra, sem renegar sua fé, sem abandonar o Evangelho, sem deixar de amar a Igreja de Cristo. Sua caminhada de evangelização não acabou; apenas mudou de jurisdição e de vestes. A fé, o chamado e o desejo de servir continuam os mesmos.
Em um país livre e em uma fé que se afirma no amor, é esse respeito à consciência, à dignidade e à liberdade que deve prevalecer.
Materia : Dom Frei Lucas Macieira da Silva, Arcebispo Primaz, Teólogo e Jornalista.
































