São Paulo — A presença da Família Real Africana em território brasileiro, com agenda prevista para o mês de fevereiro, reacende um debate histórico, cultural e político sobre ancestralidade, diáspora africana e reconhecimento das raízes afrodescendentes no Brasil. O roteiro oficial da visita em São Paulo inclui Taboão da Serra, Embu das Artes e Cotia, municípios simbólicos pela forte presença de comunidades negras, coletivos culturais e movimentos de valorização da identidade africana.
Uma visita que dialoga com a história
O Brasil recebeu cerca de 40% de todos os africanos trazidos à força durante o período escravocrata. A chegada de representantes da realeza africana, oriundos de diferentes nações do continente, carrega um significado histórico profundo: reconectar laços interrompidos pela colonização e reafirmar a África como matriz civilizatória, política e espiritual.
A programação prevê encontros institucionais, atividades culturais, rodas de diálogo, celebrações ancestrais e visitas a territórios periféricos, onde a herança africana se mantém viva por meio da religião, da arte, da oralidade e da resistência social.
O simbolismo das cidades do roteiro
A inclusão de Taboão da Serra, Embu das Artes e Cotia no itinerário não é casual. As três cidades se destacam por:
Forte atuação de coletivos culturais afro-brasileiros;
Histórico de lutas por direitos humanos e igualdade racial;
Produção artística ligada à ancestralidade africana;
Presença de lideranças religiosas de matriz africana.
Esses territórios se tornam, assim, espaços de reconexão histórica entre África e Brasil, reforçando o papel das periferias como guardiãs da memória afrodescendente.
Polêmica, identidade e política
A visita também desperta controvérsias. Setores conservadores questionam o reconhecimento simbólico da realeza africana em solo brasileiro, enquanto movimentos sociais defendem a iniciativa como um ato político-pedagógico, capaz de enfrentar o racismo estrutural e ampliar o debate sobre reparação histórica.
Especialistas apontam que o evento ultrapassa o caráter cultural, inserindo-se no campo das relações internacionais não estatais, da diplomacia cultural e da construção de uma nova narrativa sobre a presença africana no Brasil — não como passado escravizado, mas como civilização viva, soberana e produtora de conhecimento.
Dimensão didática e legado
Para educadores e ativistas, a passagem da Família Real Africana pelo estado de São Paulo representa uma oportunidade única de:
Fortalecer a aplicação da Lei 10.639/03 (ensino da história e cultura afro-brasileira e africana);
Valorizar referências positivas negras;
Estimular o pertencimento identitário de jovens periféricos;
Construir pontes culturais, espirituais e econômicas entre África e Brasil.
Um marco para a memória coletiva mais do que um evento, a visita se consolida como um marco simbólico de reaproximação histórica, reposicionando o Brasil dentro da diáspora africana global e reafirmando o papel das cidades da Grande São Paulo como protagonistas desse diálogo ancestral

































