A Declaraรงรฃo do Rio de Janeiro, resultado do G20 Social, reforรงa o apelo de movimentos sociais por justiรงa global, combate ร fome e mudanรงas do clima, e reforma urgente na governanรงa internacional. O evento encerra neste sรกbado, antecedendo a reuniรฃo de lรญderes na prรณxima semana.
O encerramento do G20 Social foi marcado por discursos enfรกticos e a apresentaรงรฃo da Declaraรงรฃo do Rio de Janeiro, um documento elaborado em colaboraรงรฃo com movimentos sociais de todo o mundo. O evento, realizado paralelamente ร s atividades do G20, destacou a urgรชncia de reformar a governanรงa global para enfrentar desafios contemporรขneos, como mudanรงas do clima, desigualdades sociais e crises geopolรญticas.
Oliver Rรถpke, presidente do Comitรช Econรดmico e Social Europeu, chamou a atenรงรฃo para a necessidade de combater as desigualdades para moldar um futuro mais justo. “Estamos em uma encruzilhada. A forรงa global enfrenta uma crise em que os sistemas de governanรงa nรฃo servem mais ao nosso tempo. Precisamos de reformas estruturais para incluir a sociedade civil e fortalecer a comunidade internacional com crescimento inclusivo e salvaguarda de direitos sociais”, afirmou. Para ele, o G20 Social deve servir como um exemplo global, mostrando que รฉ possรญvel criar um mundo que ouรงa as aspiraรงรตes das populaรงรตes.
Uma Declaraรงรฃo para o futuro
Mazรฉ Morais, representante da sociedade civil, leu o documento final, enfatizando que ele foi resultado de um processo participativo que buscou amplificar as vozes frequentemente ignoradas nas decisรตes globais. A Declaraรงรฃo do G20 Social serรก entregue aos lรญderes do G20 em sua cรบpula nos dias 18 e 19 de novembro. O texto enfatiza trรชs pilares centrais: combate ร fome, ร pobreza e ร desigualdade; enfrentamento das mudanรงas do clima e transiรงรฃo justa; e reforma da governanรงa global.
O texto destaca que foi construรญdo com a contribuiรงรฃo de grupos historicamente marginalizados, como mulheres, negros, indรญgenas, pessoas com deficiรชncia, trabalhadores da economia formal e informal, comunidades tradicionais e pessoas em situaรงรฃo de rua. Esses segmentos, frequentemente afetados pelas decisรตes globais, demandam mais participaรงรฃo nos processos de governanรงa mundial.
Os movimentos exigem uma reforma urgente para que instituiรงรตes como a ONU e outros organismos multilaterais reflitam a realidade contemporรขnea. A reformulaรงรฃo do Conselho de Seguranรงa da ONU รฉ vista como fundamental para ampliar a representatividade global e promover soluรงรตes mais justas e eficazes.
Combate ร fome e justiรงa socioeconรดmica
Uma das propostas centrais รฉ o apoio ร Alianรงa Global contra a Fome e a Pobreza, alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentรกvel (ODS) da ONU. A defesa รฉ que a Alianรงa tenha um fundo especรญfico para polรญticas pรบblicas de combate ร fome, com garantia de acesso universal ร alimentaรงรฃo adequada, ร terra e ร รกgua.
A Declaraรงรฃo tambรฉm destaca a necessidade de democratizar a produรงรฃo e distribuiรงรฃo de alimentos, valorizando prรกticas agroecolรณgicas e evitando a mercantilizaรงรฃo de recursos naturais. O trabalho digno, conforme os padrรตes da Organizaรงรฃo Internacional do Trabalho (OIT), tambรฉm รฉ prioridade, com defesa da formalizaรงรฃo do mercado, fortalecimento da economia solidรกria e ampliaรงรฃo dos direitos sindicais.
Sustentabilidade e enfrentamento das mudanรงas do clima
As mudanรงas do clima foram outro ponto destacado do documento. Os movimentos sociais exigem compromissos concretos para reduzir as emissรตes de gases de efeito estufa e proteger ecossistemas essenciais, como as florestas tropicais. A Declaraรงรฃo propรตe a criaรงรฃo de um fundo internacional para financiar aรงรตes de conservaรงรฃo e incluir as populaรงรตes locais em atividades produtivas sustentรกveis.
A transiรงรฃo justa foi definida como um princรญpio norteador para substituir o modelo de produรงรฃo baseado em combustรญveis fรณsseis por uma economia de baixo carbono. Essa transformaรงรฃo deve garantir condiรงรตes equitativas para trabalhadores e trabalhadoras, enfrentando tambรฉm o racismo ambiental e a pobreza energรฉtica.
Reforma da governanรงa global e fortalecimento da democracia
O documento denuncia que o atual modelo de governanรงa global รฉ incapaz de responder aos desafios contemporรขneos. A reforma das instituiรงรตes multilaterais deve promover o multilateralismo, ampliar a participaรงรฃo dos paรญses do Sul Global e incluir a sociedade civil nos processos decisรณrios.
A Declaraรงรฃo tambรฉm alerta para os riscos que a democracia enfrenta com a disseminaรงรฃo de desinformaรงรฃo e discursos totalitรกrios, especialmente pela extrema direita. A defesa do Estado de Direito e a promoรงรฃo de uma governanรงa inclusiva e transparente sรฃo apontadas como fundamentais para uma agenda global legรญtima e eficaz.
Para financiar essas transformaรงรตes, os movimentos sociais propรตem a taxaรงรฃo progressiva dos super-ricos, com recursos destinados a fundos transparentes e monitorados pela sociedade civil. A Declaraรงรฃo do Rio de Janeiro tambรฉm reforรงa a necessidade de solidariedade global para mitigar desigualdades e proteger ecossistemas.
Compromisso com o futuro
O documento final conclui com um apelo aos lรญderes do G20: “ร hora de assumirmos a responsabilidade de liderar uma transformaรงรฃo profunda e duradoura. Este รฉ o momento de agir com determinaรงรฃo e solidariedade para fortalecer instituiรงรตes, combater a fome e as desigualdades, mitigar os impactos das mudanรงas climรกticas e proteger os ecossistemas”, conclamou a representante da sociedade civil, Mazรฉ Morais.
Mรกrcio Macรชdo, ministro da Secretaria-Geral da Presidรชncia da Repรบblica, enalteceu o papel do presidente Luiz Inรกcio Lula da Silva na inclusรฃo dos movimentos sociais no centro do debate global. “Sรณ um presidente com as caracterรญsticas de Lula รฉ capaz de colocar os movimentos sociais e o povo como protagonistas na agenda mundial”, afirmou.
O ministro anunciou que a Declaraรงรฃo serรก entregue aos chefes de Estado do G20 com “as impressรตes digitais do povo”.
O G20 Social no Rio de Janeiro contou com cerca de 50 mil participantes em trรชs dias de evento, com 271 atividades autogestionadas que debateram 300 temas. O evento, que reflete o ineditismo e a ampliaรงรฃo das vozes cidadรฃs, terรก continuidade na รfrica do Sul, prรณximo paรญs a sediar o G20.
G20 Social – Declaraรงรฃo Final
A Cรบpula Social do G20, reunida entre os dias 14 e 16 de novembro, no Rio de Janeiro, ao final do amplo processo de participaรงรฃo do G20 Social, convocado pela Presidรชncia Brasileira do G20, dirige aos lรญderes mundiais, que se reunirรฃo entre os dias 18 e 19 de novembro, na Cรบpula do C20, a seguinte DECLARAรรO sobre as principais propostas da sociedade civil global, consensuadas durante os trabalhos realizados ao longo do ano, em torno dos trรชs temas centrais da presidรชncia brasileira do G20:
Combate ร Fome, ร Pobreza e ร Desigualdade; Sustentabilidade, Mudanรงas do Clima e Transiรงรฃo Justa; Reforma da Governanรงa Global;
Quem somos e de onde falamos
Representamos movimentos sociais e organizaรงรตes da sociedade civil do Brasil e do mundo, reunidos ao final de intensos processos participativos, que buscaram dar voz aos mais diversos segmentos da sociedade global, frequentemente impactados, mas raramente ouvidos nas grandes decisรตes geopolรญticas e macroeconรดmicas conduzidas por um seleto grupo de mandatรกrios.
Durante esses meses de trabalho, buscamos incorporar as demandas, reivindicaรงรตes e propostas historicamente construรญdas pelas organizaรงรตes e movimentos de mulheres, negros e negras, povos originรกrios e indรญgenas, comunidades tradicionais, pessoas com deficiรชncias, LGBTQIA+, jovens, crianรงas, adolescentes, pessoas idosas, populaรงรตes deslocadas ou em situaรงรฃo de rua, migrantes, refugiados e apรกtridas, trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, da economia formal, informal, solidรกria e de cuidados. Todos clamando por uma reforma da governanรงa global que assegure o fim dos conflitos armados, o desenvolvimento e a justiรงa socioambiental para si e para todo o planeta.
Combate ร fome, ร pobreza e ร desigualdade
Em carรกter de urgรชncia e prioridade mรกxima, รฉ imperiosa a adesรฃo de todos os paรญses do G20 e outros Estados, ร iniciativa da Alianรงa Global contra a Fome e a Pobreza. Em alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentรกvel da Agenda 2030 da ONU, essa alianรงa deve promover a cooperaรงรฃo e a intercooperaรงรฃo entre paรญses e organismos internacionais, estabelecendo um fundo especรญfico para financiar polรญticas pรบblicas e programas de combate ร fome, de forma a garantir o acesso universal ร alimentaรงรฃo adequada.
Defendemos a soberania alimentar, a partir da produรงรฃo de alimentos saudรกveis, como um pilar para erradicar o flagelo da fome em cada naรงรฃo e no plano global. Os povos devem ter reconhecido o direito de acesso democratizado ร terra e ร รกgua, de controlar sua prรณpria produรงรฃo e distribuiรงรฃo de alimentos, com รชnfase em prรกticas agroecolรณgicas e de preservaรงรฃo do meio ambiente. A promoรงรฃo de uma alimentaรงรฃo saudรกvel deve ser central para assegurar justiรงa socioambiental, garantindo que todos os grupos sociais, independentemente de raรงa, classe, gรชnero ou origem, tenham acesso igualitรกrio aos benefรญcios ambientais, respeitando as culturas alimentares tradicionais e evitando a mercantilizaรงรฃo dos recursos naturais.
Reafirmamos a centralidade do trabalho decente, conforme os padrรตes da OIT, como elemento essencial na superaรงรฃo da pobreza e das desigualdades. ร crucial combater o trabalho escravo, infantil, o trรกfico humano e todas as demais formas de exploraรงรฃo e de precarizaรงรฃo do trabalho. Enfatizamos a defesa da formalizaรงรฃo do mercado de trabalho e de economias inclusivas e contra-hegemรดnicas, como a economia popular e solidรกria, cooperativas, cozinhas solidรกrias e o reconhecimento e valorizaรงรฃo da economia de cuidados. ร essencial assegurar que todos, especialmente jovens, populaรงรฃo negra, mulheres e os mais vulnerรกveis, tenham acesso a empregos dignos, sistemas de seguridade e proteรงรฃo social e ร ampliaรงรฃo dos direitos sindicais.
Sustentabilidade, mudanรงas do clima e transiรงรฃo justa
Os mesmos dilemas que atingem milhรตes de pessoas vรญtimas da fome, das desigualdades e da pobreza refletem-se no descompromisso da maioria dos paรญses desenvolvidos e de suas elites com o enfrentamento das mudanรงas climรกticas e o aquecimento global. As populaรงรตes mais afetadas pela fome e pela pobreza sรฃo as que mais sofrem com as emergรชncias climรกticas e desastres naturais, que se tornam mais intensos e frequentes em todo o mundo.
Reiteramos a urgรชncia de enfrentar as mudanรงas climรกticas, com respeito ร ciรชncia e aos conhecimentos tradicionais dos nossos povos, destacando a importรขncia dos compromissos de adaptaรงรฃo e mitigaรงรฃo no รขmbito da Contribuiรงรฃo Nacionalmente Determinada (NDC) e do Acordo de Paris. ร uma exigรชncia รฉtica que os lรญderes mundiais assumam um compromisso firme com a reduรงรฃo de emissรตes de gases de efeito estufa e do desmatamento, bem como a proteรงรฃo dos oceanos, condiรงรตes essenciais para limitar o aquecimento global a 1,5ยฐC e evitar danos irreversรญveis ao planeta.
A transiรงรฃo justa, como processo de transformaรงรฃo socioeconรดmica para um modelo sustentรกvel, deve ser o princรญpio norteador para substituir o modelo de produรงรฃo baseado em combustรญveis fรณsseis por uma economia de baixo carbono. Essa transformaรงรฃo precisa enfrentar a exclusรฃo social, a pobreza energรฉtica e o racismo ambiental, e garantir condiรงรตes equitativas para trabalhadores e trabalhadoras, pessoas negras e comunidades vulnerรกveis. Reforรงamos que essa transiรงรฃo exige um esforรงo relevante de educaรงรฃo ambiental, participaรงรฃo social e formaรงรฃo cidadรฃ.
Precisamos reforรงar, tambรฉm, a proteรงรฃo de nossas florestas tropicais atravรฉs da criaรงรฃo do Fundo Floresta Tropical para Sempre (TFFF), um mecanismo de financiamento internacional dedicado ร sua proteรงรฃo e inclusรฃo socioprodutiva das populaรงรตes que delas vivem e as mantรฉm em pรฉ. Este fundo, somado a um Novo Objetivo Quantificado Coletivo (NCQG) de financiamento climรกtico, fortalecerรก a articulaรงรฃo global necessรกria para preservar o meio ambiente, garantindo o apoio financeiro contรญnuo para conservar a biodiversidade e enfrentar a crise climรกtica de forma eficaz.
Reforma da governanรงa global
Para atingir esses objetivos, reivindicamos a necessรกria e inadiรกvel reforma do modelo atual de governanรงa global, que jรก se mostrou incapaz de oferecer respostas aos desafios contemporรขneos e a manutenรงรฃo da paz.
Assim, enfatizamos a necessidade inadiรกvel de reforma das instituiรงรตes internacionais para que reflitam a realidade geopolรญtica contemporรขnea, com a promoรงรฃo do multilateralismo e ampliaรงรฃo da participaรงรฃo dos governos e povos dos paรญses do Sul Global nos fรณruns decisรณrios. Em especial, a reforma do Conselho de Seguranรงa da ONU รฉ imprescindรญvel para garantir a diversidade de vozes globais e promover soluรงรตes mais equilibradas e eficazes frente aos desafios atuais.
Defendemos que esta reforma abrace a premissa da promoรงรฃo da democracia e da participaรงรฃo da sociedade civil. A democracia estรก em risco quando forรงas de extrema direita promovem desinformaรงรฃo, discursos totalitรกrios e autoritรกrios, atentando contra os direitos humanos e veiculando mentira, รณdio, preconceito, xenofobia, etarismo, racismo e violรชncia nas relaรงรตes sociais e polรญticas, dentro das fronteiras de cada paรญs e no plano internacional. Defender a democracia implica em defender o Estado Democrรกtico de Direito e a participaรงรฃo direta da populaรงรฃo nos mecanismos nacionais e internacionais de regulaรงรฃo das informaรงรตes. O exercรญcio do direito ร transparรชncia e comunicaรงรฃo plural assegura uma governanรงa global inclusiva, conferindo legitimidade e eficรกcia aos Estados e organismos internacionais.
Acreditamos que a justiรงa fiscal รฉ uma ferramenta fundamental para alcanรงar o desenvolvimento sustentรกvel. Por isso, defendemos a taxaรงรฃo progressiva dos super-ricos, com a garantia de que os recursos arrecadados sejam destinados a fundos nacionais e internacionais de financiamento de polรญticas sociais, ambientais e culturais. Esses e todos os demais fundos aqui reivindicados devem estar regidos por princรญpios de transparรชncia, controle e participaรงรฃo da sociedade civil.
Conclusรฃo
Senhores e senhoras lรญderes do G20, รฉ hora de assumirmos a responsabilidade de liderar uma transformaรงรฃo que seja efetivamente profunda e duradoura.
Compromissos ambiciosos sรฃo essenciais para fortalecer as instituiรงรตes internacionais, combater a fome e a desigualdade, mitigar os impactos das mudanรงas do clima e proteger nossos ecossistemas. Este รฉ o momento de agir com determinaรงรฃo e solidariedade. Com vontade polรญtica e a institucionalizaรงรฃo de instรขncias como a Cรบpula Social do G20, podemos, sim, construir uma agenda coletiva que honre o compromisso com a justiรงa social e com a paz global.
Materia envida pela Assessoria de Comunicaรงรฃo do G20 Social no Brasil

































