A falta de uma universidade pública no extremo sul da capital paulista continua sendo uma das principais reivindicações dos moradores da região. Em entrevista concedida à Gazzeta, no dia 22 de maio de 2026, a coordenadora geral do Movimento Universidade Pública Grajaú, Parelheiros e Cidade Dutra, Sheila Paulino, e o estudante de Direito e conselheiro social Adeildo falaram sobre a luta pela implantação de equipamentos públicos de ensino superior e também sobre os impactos da ausência dessas políticas em áreas como saúde, transporte e desenvolvimento social.
Segundo Sheila Paulino, o Movimento surgiu em 2023 após o anúncio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a expansão da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, com a previsão de criação de novos Institutos Federais em todo o país. No entanto, a reivindicação da população da região é muito mais antiga.
“O Movimento Universidade Pública Grajaú, Parelheiros e Cidade Dutra é um movimento suprapartidário, formado pela população e apoiadores da região. Mas essa luta não começou agora. Há mais de 40 anos os moradores reivindicam uma universidade pública para o extremo sul da cidade de São Paulo”, explicou.
A coordenadora destacou que, enquanto outras regiões da capital contam com universidades estaduais e federais, o extremo sul permanece sem nenhum equipamento público de ensino superior mantido pelos governos federal ou estadual.
Atualmente, os distritos do Grajaú, Parelheiros e Capela do Socorro somam aproximadamente 800 mil habitantes. Segundo o Movimento, cerca de 51% dessa população tem entre 0 e 29 anos, o que evidencia a grande demanda por educação pública de qualidade.
De acordo com Sheila, desde 2023 o grupo realiza pesquisas territoriais, estudos e reuniões com representantes do Instituto Federal, da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), do Ministério da Educação e de outros órgãos públicos para defender a instalação de um campus federal na região.
Apesar dos esforços, o pedido não foi contemplado nas fases recentes de expansão da rede federal.
“Nós recebemos respostas técnicas informando que a região não estava entre as prioridades. Tentamos incluir o território numa segunda etapa de expansão, mas isso também não aconteceu. Além disso, não houve qualquer sinalização dos governos municipal ou estadual para apoiar a iniciativa, seja com a cessão de terreno ou com a compra de uma área para instalação do equipamento”, afirmou.
Região poderia atender cerca de 600 mil jovens
Questionada sobre quantas instituições seriam necessárias para atender a demanda local, Sheila explicou que novos estudos estão sendo realizados para mapear com maior precisão as necessidades da população.
No entanto, ela estima que aproximadamente 600 mil jovens poderiam ser beneficiados diretamente por uma estrutura pública de ensino superior instalada no extremo sul, considerando moradores do Grajaú, Parelheiros, Capela do Socorro, Pedreira, M’Boi Mirim, Santo Amaro, Valo Velho, Itapecerica da Serra e Embu-Guaçu.
Segundo ela, além da grande concentração populacional, a região enfrenta dificuldades históricas de mobilidade urbana.
“Estamos no extremo do mapa da cidade. Temos apenas uma linha de trem para atender uma população próxima de um milhão de pessoas. Muitos jovens não conseguem permanecer em cursos universitários localizados em outras regiões devido ao custo e ao tempo de deslocamento”, destacou.
Para o Movimento, a estrutura ideal seria composta por pelo menos uma universidade pública, um Instituto Federal e uma Fatec.
“Precisamos atender diferentes perfis de estudantes. Há quem precise de ensino técnico, ensino médio integrado, graduação, pós-graduação e especialização. Uma única instituição não atenderia toda essa demanda”, explicou.
Exemplo de Cotia é citado como modelo
Durante a entrevista, a coordenadora também comentou a iniciativa da Prefeitura de Cotia, que adquiriu e reformou um imóvel para viabilizar a instalação de um Instituto Federal no município.
Segundo Sheila, diversas cidades brasileiras conseguiram receber unidades federais justamente porque houve participação ativa dos governos locais.
“Muitos municípios conquistaram Institutos Federais porque os prefeitos ou governadores ofereceram terrenos ou estruturas para instalação. Infelizmente, não tivemos nenhuma manifestação semelhante por parte da Prefeitura de São Paulo ou do Governo do Estado”, afirmou.
Ela ressaltou que a vontade política é decisiva para transformar a realidade de um território e defendeu uma atuação conjunta entre os três níveis de governo para garantir investimentos estruturantes no extremo sul da capital.
“Não existe justificativa razoável para uma região com quase um milhão de habitantes continuar sem uma política pública de ensino superior de grande impacto”, declarou.
Saúde também sofre impactos da falta de investimentos
O conselheiro social Adeildo destacou que a ausência de investimentos estruturais também afeta diretamente a saúde pública da região.
Segundo ele, há deficiência de profissionais nas unidades de atendimento e sobrecarga constante dos trabalhadores da área.
“Não adianta apenas construir UBSs e UPAs. É preciso ter profissionais para atender a população. Hoje muitos trabalhadores são deslocados de uma unidade para outra para suprir a falta de pessoal, o que acaba adoecendo tanto os profissionais quanto os pacientes”, afirmou.
Adeildo também criticou o modelo de gestão por Organizações Sociais (OSs), alegando que os trabalhadores não recebem o acolhimento necessário e que os recursos públicos poderiam ser melhor aplicados na contratação direta de profissionais por meio de concursos públicos.
Ele ressaltou ainda que a população do extremo sul frequentemente se sente esquecida pelo poder público.
“Costumo dizer que da ponte para cá nós não existimos. Estamos falando de uma região com quase um milhão de habitantes e que continua sem o atendimento adequado nas áreas de saúde, educação e transporte”, disse.
Formação de profissionais da saúde preocupa
Sheila acrescentou que o território possui instituições privadas de ensino superior voltadas para a área da saúde, mas destacou a importância da presença de universidades públicas para elevar a qualidade da formação profissional.
Ela citou o desempenho de uma universidade privada da região em avaliações nacionais da área médica como exemplo da necessidade de ampliar a oferta de ensino público de excelência.
“A saúde é apenas uma das áreas que demonstram a importância de termos universidades públicas no território. Precisamos formar profissionais qualificados para atender a população e contribuir para o desenvolvimento da região”, concluiu.
Ao final da entrevista, os representantes do Movimento reforçaram que continuarão mobilizando moradores, lideranças e autoridades para defender a implantação de uma universidade pública, de um Instituto Federal e de uma Fatec no extremo sul da cidade de São Paulo.




































