A narrativa tradicional sobre a formação do Brasil ainda resiste em livros didáticos e no imaginário coletivo: um suposto “encontro harmonioso” entre povos indígenas, europeus e africanos. Essa leitura, porém, ignora conflitos estruturais e episódios de violência sistemática que marcaram a colonização. Ao revisitar a história sob uma perspectiva crítica, emergem capítulos deliberadamente ocultados — entre eles, a chamada Guerra dos Bárbaros.
Um conflito apagado da memória nacional
Entre 1651 e 1720, o sertão nordestino foi palco de uma guerra prolongada entre colonizadores portugueses e diversos povos indígenas, especialmente aqueles identificados como Tapuias. O termo “bárbaros”, longe de descrever uma realidade, funcionava como instrumento ideológico para justificar a violência e o extermínio.
O historiador Pedro Puntoni, em sua obra A Guerra dos Bárbaros: Povos Indígenas e a Colonização do Sertão Nordeste do Brasil (1650–1720), demonstra que não se tratou de conflitos isolados, mas de uma política contínua de ocupação territorial baseada em campanhas militares, escravização e destruição de comunidades originárias.
Rio Grande do Norte: território de resistência
No Rio Grande do Norte, essa guerra teve episódios decisivos. Um dos mais emblemáticos foi a chamada Guerra do Açu (1687–1692), quando povos indígenas liderados pelo chefe Canindé organizaram uma resistência articulada contra a expansão colonial.
Os Janduís, aliados a outros grupos, conseguiram expulsar colonos do vale do Rio Açu, destruindo fazendas e ameaçando avançar sobre áreas estratégicas como Natal. Capturado posteriormente, Canindé negociou um tratado que reconhecia terras e liberdade indígena — acordo que seria descumprido pelos colonizadores pouco tempo depois.
O historiador Afonso Taunay registrou a relevância dessa resistência, frequentemente minimizada nos relatos oficiais.
Massacres e traições: a violência como método
Outro episódio brutal ocorreu em 1699, no Ceará, com o chamado Massacre do Jaguaribe. Segundo o pesquisador José Cordeiro, indígenas Paiaku foram enganados durante uma celebração, desarmados e assassinados em massa.
Esses episódios não foram exceção — eram parte de uma lógica colonial estruturada. Documentos da época, como atas da Câmara de Natal, utilizavam explicitamente o termo “extermínio” como objetivo político. A chamada “guerra justa”, conceito jurídico europeu, servia como base para legitimar ataques, expulsões e confinamento em aldeamentos.
Território, apagamento e disputa atual
A violência não terminou no período colonial. Seus efeitos estruturais persistem. Reconhecer a Guerra dos Bárbaros implica admitir que grande parte dos territórios do sertão nordestino — incluindo áreas do Rio Grande do Norte — foi ocupada por meio de expulsão e sangue.
Hoje, comunidades indígenas como as de Baía Formosa e Sagi seguem lutando pelo reconhecimento de suas terras, frequentemente classificadas pelo Estado como propriedade privada. A disputa territorial expõe uma continuidade histórica: o direito indígena segue sendo negado.
Paralelamente, como aponta o pesquisador Marcos Felipe Vicente, os aldeamentos missionários funcionaram como instrumentos de aculturação forçada, impondo valores europeus e deslegitimando identidades originárias.
Cultura invisibilizada no cotidiano
O apagamento não se restringe à terra. Ele se manifesta também na cultura. Em cidades como Natal, símbolos da cultura indígena são frequentemente relegados ao folclore, enquanto referências estrangeiras dominam o cotidiano.
A comparação é simbólica, mas reveladora: a tradicional ginga com tapioca disputa espaço com o hambúrguer globalizado. Mais do que uma escolha alimentar, trata-se de um reflexo de quais culturas são valorizadas e quais são marginalizadas.
O que está em jogo
A ausência dessa história nos currículos escolares e no debate público não é acidental. Reconhecer esses fatos implica discutir reparação histórica, revisão fundiária e valorização cultural.
A memória da Guerra dos Bárbaros e da resistência de lideranças como Canindé não pertence apenas ao passado — ela define disputas contemporâneas sobre território, identidade e direitos.
Negar essa história é perpetuar a lógica colonial. Recuperá-la é um ato político de existência.
































